Foto: Mikhail Fesenko / Pexels
Em tecnologia a pergunta muda de cara conforme quem faz. O dev que vai ser PJ de um contrato quer saber o formato mais simples. A startup que vai receber investimento quer saber o formato que aceita sócio novo sem refazer tudo. São respostas diferentes — e nenhuma delas é MEI.
Vale separar as duas listas que a pergunta junta. MEI, ME e EPP são porte: até quanto a empresa pode faturar por ano. EI, SLU e LTDA são tipo societário: quantas pessoas assinam e quem responde pelas dívidas. Você escolhe as duas coisas no mesmo dia.
E há um detalhe da LC 123/2006 que quase ninguém lê e que vale dinheiro para quem desenvolve software: a previsão do Anexo III para elaboração de programas de computadores tem uma condição — "desde que desenvolvidos em estabelecimento do optante". Quem terceiriza o desenvolvimento inteiro precisa saber disso antes, não depois.
Abaixo estão as duas escolhas separadas, por que dev não cabe no MEI, o que muda entre SLU e LTDA quando entra investidor, e a conta do Fator R para quem fatura sozinho.
Resposta rápida
MEI, ME e EPP são porte; EI, SLU e LTDA são tipo. Desenvolvimento de software não está no Anexo XI da Resolução CGSN nº 140/2018 — o que existe na lista é conserto de computador, aula de informática e venda de equipamento. O caminho é SLU para quem fatura sozinho e LTDA para quem tem ou vai ter sócio. No Simples, software está nos incisos IV, V e VI do § 5º-D do art. 18 da LC 123/2006, no Anexo III, e cai ao Anexo V pelo § 5º-M com folha abaixo de 28% — no exemplo desta página, R$ 2.105,00 por mês de diferença.
Vai virar PJ ou abrir a empresa de tecnologia e quer fazer isso certo?
Falar com um contadorMEI e ME são porte. LTDA é tipo. Não são a mesma lista
Esse é o nó da pergunta, e ele atrapalha a decisão desde o primeiro dia. MEI, ME e EPP dizem o tamanho da empresa — quanto ela pode faturar por ano. EI, SLU e LTDA dizem a forma dela — quem responde pelas dívidas e quantas pessoas assinam. São duas escolhas separadas, feitas no mesmo dia, e você faz as duas.
| Porte | Teto de faturamento | Onde está na lei |
|---|---|---|
| MEI | Até R$ 81.000,00 por ano | Art. 18-A, § 1º, da LC 123/2006 |
| Microempresa (ME) | Até R$ 360.000,00 por ano | Art. 3º, I, da LC 123/2006 |
| Empresa de Pequeno Porte (EPP) | Acima de R$ 360.000,00 e até R$ 4.800.000,00 por ano | Art. 3º, II, da LC 123/2006 |
Fonte: Lei Complementar nº 123/2006, art. 3º, incisos I e II, e art. 18-A, § 1º. Consultada no Planalto.
Repare no que a tabela acima não diz: ela não fala em sócio, não fala em contrato social e não fala em responsabilidade. Porque porte não trata disso. O próprio art. 3º da LC 123/2006 deixa claro ao listar quem pode ser ME ou EPP: a sociedade empresária, a sociedade simples e o empresário individual — ou seja, o porte vale para qualquer um dos tipos.
Como a frase fica quando está certa
Não existe "a empresa é MEI ou é LTDA". Existe: ela é uma SLU ou uma LTDA (tipo), enquadrada como ME ou EPP (porte), no Anexo III ou V do Simples (regime). Em tecnologia, o tipo é a única das três que realmente trava: o porte se ajusta sozinho e o anexo se resolve com pró-labore, mas a SLU não aceita um segundo sócio sem virar outra coisa.
Em tecnologia o porte costuma envelhecer rápido: um contrato PJ de valor alto ou um SaaS que engrena saem de ME para EPP em poucos meses. A boa notícia é que essa troca é automática e não exige CNPJ novo. A que exige atenção é o tipo — e é a que ninguém revisa.
Desenvolvedor pode ser MEI? Não
O Anexo XI da Resolução CGSN nº 140/2018 é uma lista de ocupações permitidas, e desenvolvimento de software não está nela. O que existe na lista são atividades vizinhas e diferentes: conserto e manutenção de computador, instrutor de informática e comércio de equipamento. Nenhuma cobre escrever código para cliente.
Além disso, o art. 18-A, § 1º, da LC 123/2006 define o MEI como o empresário individual do art. 966 do Código Civil, cujo parágrafo único exclui "quem exerce profissão intelectual, de natureza científica". Desenvolvimento de software se encaixa nessa descrição com folga.
A conferência completa da lista está em desenvolvedor pode ser MEI.
Os três limites que travam o MEI, mesmo quando a ocupação está na lista
- Teto de R$ 81.000,00 por ano (art. 18-A, § 1º, da LC 123/2006). Quem começa no meio do ano tem o teto proporcional aos meses.
- No máximo um empregado, e ele recebe um salário mínimo ou o piso da categoria.
- Nenhuma filial. Um segundo endereço já obriga a sair do MEI.
Na prática, o dev que vira PJ não passa pelo MEI: vai direto para a SLU no Simples Nacional. E é bom que seja assim, porque o teto de R$ 81.000,00 por ano ficaria apertado no primeiro contrato de dedicação integral.
EI, SLU ou LTDA: o que muda de verdade
Fora do MEI, a escolha do formato é esta. Ela não tem nada a ver com faturamento — tem a ver com quem responde se a empresa dever e com quantas pessoas assinam o contrato.
| Tipo | Quantos sócios | O seu patrimônio pessoal | Onde registra | Base legal |
|---|---|---|---|---|
| Empresário Individual (EI) | Uma pessoa só | Não separa. O patrimônio da empresa e o seu são o mesmo | Junta Comercial | Art. 966 e 967 do Código Civil |
| Sociedade Limitada Unipessoal (SLU) | Uma pessoa só | Separa. Responde pelo valor das quotas, integralizado o capital | Junta Comercial | Art. 1.052, § 1º, do Código Civil |
| Sociedade Limitada (LTDA) | Duas ou mais | Separa. Cada sócio responde pelo valor das suas quotas | Junta Comercial | Art. 1.052, caput, do Código Civil |
| Sociedade Simples (pode ser limitada) | Duas ou mais | Separa, quando constituída no tipo limitada | Cartório de Registro Civil de PJ | Art. 982 e 983 do Código Civil |
Fonte: Código Civil (Lei nº 10.406/2002), arts. 966, 967, 982, 983 e 1.052, com a redação dada pela Lei nº 13.874/2019. Consultado no Planalto.
A EIRELI saiu do mapa e você não precisa procurar por ela: a Lei nº 14.195/2021, no art. 41, determinou que as EIRELIs existentes "serão transformadas em sociedades limitadas unipessoais independentemente de qualquer alteração em seu ato constitutivo". Quem tinha uma já tem uma SLU, mesmo sem ter feito nada.
Aqui a escolha entre SLU e LTDA tem uma consequência que os outros setores não têm: a SLU não comporta cap table. Ela é de uma pessoa só por definição. No momento em que entra cofundador, investidor-anjo ou qualquer participação societária, ela precisa virar LTDA — o que é possível, mas é uma alteração a mais no meio de uma rodada.
A parte que decide: o seu patrimônio pessoal
Esta é a diferença que mais custa caro e a que menos aparece na conversa de abertura, porque ela só aparece no pior dia. No Empresário Individual, empresa e pessoa são o mesmo patrimônio: a dívida da empresa alcança o que está no seu nome. Na SLU e na LTDA, o art. 1.052 do Código Civil diz o contrário — "a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social".
O que a escolha do tipo decide, no seu caso
- A multa por atraso e o SLA. Contratos de desenvolvimento trazem cláusula de prazo e de penalidade. Acionada, é dívida da empresa — no Empresário Individual, dívida sua.
- A propriedade intelectual e o sigilo. Cláusula de confidencialidade quebrada gera indenização, e o valor não costuma ser pequeno.
- A garantia pessoal que você assinou. Fiança da sala, cartão corporativo e garantia em contrato com cliente grande continuam suas em qualquer tipo societário.
O dev PJ costuma achar que não tem passivo. Tem — e o passivo dele é contratual. Contratos de desenvolvimento trazem cláusula de propriedade intelectual, confidencialidade, SLA e multa por atraso. Se a multa for acionada, é dívida da empresa. No Empresário Individual, é dívida sua, direto.
Para startup, a exposição é maior ainda: obrigações com investidor, contratos de licença, responsabilidade por vazamento de dados de cliente. Nada disso é hipotético, e nada disso é coberto pelo Empresário Individual — que, além de não separar o patrimônio, não recebe quota de investidor.
Do outro lado, um aviso honesto: a limitação do art. 1.052 não protege contra o que você assinou pessoalmente. Fiança do contrato de aluguel da sala, aval em cartão corporativo e garantia pessoal em contrato com cliente grande continuam sendo suas.
Vai receber investimento ou fechar um contrato grande? Vale revisar o formato antes de assinar.
Falar com um contadorCofundador, investidor e o contrato que ninguém escreve na hora certa
A história típica é essa: dois amigos começam, um deles registra a empresa no nome dele porque era mais rápido, e a divisão fica "combinada". Um ano depois, quando o produto funciona, essa combinação vira discussão. Na SLU, juridicamente, só existe um dono — o que foi combinado não tem forma.
Se o projeto tem dois fundadores, a LTDA resolve desde o primeiro dia, e o contrato social precisa dizer o que ninguém quer discutir no começo: quanto cada um tem, o que acontece se um sair antes do prazo, quem fica com o código, e como se avalia a quota de quem sai. O modelo está em acordo de sócios.
Se o projeto é individual — o dev que fatura de um ou dois clientes —, a SLU é o formato certo e não há motivo nenhum para inventar sócio. Desde a Lei nº 13.874/2019, o § 1º do art. 1.052 do Código Civil admite a limitada com uma pessoa só.
E há o ponto que não é societário mas mora aqui: contrato de dev PJ com exclusividade, horário e subordinação tem risco de vínculo. O tipo da empresa não afasta esse risco — quem afasta é o desenho real da relação.
O formato mexe no imposto?
Diretamente, o tipo societário não muda o imposto. Indiretamente, muda uma coisa só: o pró-labore. Na SLU e na LTDA existe pró-labore de sócio, e pró-labore compõe a folha do Fator R.
A regra: elaboração de programas de computadores está no inciso IV do § 5º-D do art. 18 da LC 123/2006, licenciamento ou cessão de direito de uso de programas no inciso V e páginas eletrônicas no inciso VI. A redação atual do § 5º-D, dada pela LC 155/2016, coloca essas atividades no Anexo III. O § 5º-M manda ao Anexo V quando a folha dos doze meses anteriores fica abaixo de 28% da receita.
A condição que quase ninguém lê: os incisos IV e VI falam em serviços "desenvolvidos em estabelecimento do optante". Quem repassa o desenvolvimento inteiro para terceiros precisa checar esse ponto antes de contar com o Anexo III — e vale conversar com o contador sobre como a sua operação real se encaixa aí.
Para quem fatura sozinho, a boa notícia é que o Fator R é alcançável com o próprio pró-labore, sem contratar ninguém. É o que a tabela mostra.
Um exemplo com número
Isto é um exemplo
Os números abaixo são hipotéticos, escolhidos para a conta ficar redonda. Não são de nenhum cliente. As alíquotas e as parcelas a deduzir são as das tabelas oficiais em vigor. A sua empresa tem outros números — a conta só vale feita com eles.
Um dev PJ faturando R$ 25.000,00 por mês, ou R$ 300.000,00 nos últimos doze meses, sem funcionários. A única variável é o pró-labore que ele retira de si mesmo.
| Dev PJ com RBT12 de R$ 300.000,00 | Pró-labore baixo (Anexo V) | Pró-labore de R$ 7.000,00 (Anexo III) |
|---|---|---|
| Folha dos últimos 12 meses | menos de R$ 84.000,00 | R$ 84.000,00 ou mais |
| Alíquota nominal da faixa | 18,00% | 11,20% |
| Parcela a deduzir | R$ 4.500,00 | R$ 9.360,00 |
| Alíquota efetiva | 16,50% | 8,08% |
| DAS sobre R$ 25.000,00 no mês | R$ 4.125,00 | R$ 2.020,00 |
| Diferença no mês | — | R$ 2.105,00 a menos |
Fonte: LC 123/2006, art. 18, § 5º-D, IV, V e VI (Anexo III, na redação da LC 155/2016), § 5º-M (queda ao Anexo V com folha abaixo de 28%), § 5º-K (razão apurada sobre os doze meses anteriores) e Anexos III e V. Alíquota efetiva = (RBT12 × alíquota nominal − parcela a deduzir) ÷ RBT12.
São R$ 2.105,00 por mês, ou R$ 25.260,00 no ano, sem contratar ninguém e sem mudar de cliente. O custo do outro lado é o INSS retido sobre o pró-labore e o imposto de renda na fonte de quem recebe — e, na maior parte das faixas, esse custo é bem menor que a economia. A conta completa, com os dois lados, está em Fator R: Anexo III ou V.
Note o que não mudou entre as duas colunas: o tipo societário. Um dev em SLU e outro em LTDA com a mesma folha pagam exatamente o mesmo. O que o tipo decide é outra coisa — o risco pessoal e a capacidade de receber sócio.
E o dimensionamento do pró-labore não é "quanto precisa para bater 28%". É quanto faz sentido receber considerando INSS, imposto de renda e a aposentadoria que se está construindo. O caminho está em pró-labore ideal: quanto retirar.
Os erros que mais aparecem nessa escolha
Nenhum deles é raro, e todos são caros de desfazer depois:
O que dá trabalho consertar
- Abrir MEI para faturar um contrato de desenvolvimento. A atividade não está no Anexo XI, e a nota emitida nasce irregular.
- Registrar a startup como SLU com dois fundadores. A SLU é de uma pessoa só. O segundo fundador fica sem forma jurídica — e sem nada para mostrar numa rodada.
- Escolher o Empresário Individual "para ser rápido". É o mesmo prazo da SLU e deixa a multa contratual apontando para o seu patrimônio.
- Contar com o Anexo III terceirizando todo o desenvolvimento. Os incisos IV e VI do § 5º-D falam em serviços desenvolvidos em estabelecimento do optante. Vale conferir antes.
- Não retirar pró-labore. Em tecnologia, é o que mais joga a empresa para o Anexo V sem necessidade nenhuma.
- Assinar contrato PJ com exclusividade, horário e subordinação. O CNPJ não afasta o risco de vínculo quando a relação é de emprego na prática.
Escolheu e não serviu? Dá para mudar
Nada disso é definitivo, e o custo de mudar é muito menor do que o custo de ficar no formato errado. Os três caminhos mais comuns:
- De SLU para LTDA. É a mudança que mais aparece em tecnologia: entrada de cofundador ou de investidor. Faça antes da rodada, não durante.
- De Empresário Individual para SLU. Alteração na Junta Comercial, CNPJ mantido. Vale fazer antes do primeiro contrato com multa.
- Dimensionar o pró-labore. Não é mudança societária, mas é a que decide o anexo — e no dev PJ sozinho ela resolve o Fator R sem contratar ninguém.
Em tecnologia, a mudança que mais aparece é SLU → LTDA na entrada do primeiro sócio ou investidor. Fazer isso antes da rodada é uma alteração contratual comum; fazer no meio da negociação é atraso e desconforto na mesa.
O resumo
MEI está fora para desenvolvimento de software, pela lista do Anexo XI e pela definição de empresário do art. 966 do Código Civil.
SLU para quem fatura sozinho, LTDA para quem tem ou vai ter sócio. A SLU não comporta cap table.
O tipo não muda a alíquota — o pró-labore muda. No exemplo, R$ 2.105,00 por mês entre o Anexo III e o Anexo V.
Leia a condição do § 5º-D. A previsão do Anexo III para software fala em serviços desenvolvidos em estabelecimento do optante, e isso importa para quem terceiriza.
Quer o formato e o pró-labore da sua empresa de tecnologia revisados com os números reais?
Falar com um contadorPerguntas frequentes
Desenvolvedor pode ser MEI?
SLU ou LTDA para startup?
Qual a diferença entre ME e LTDA?
Empresa de tecnologia tem Fator R?
O pró-labore do sócio único conta para o Fator R?
Posso transformar a SLU em LTDA quando entrar sócio?
Quanto custa a contabilidade de uma empresa de tecnologia na Hopecont?
Fale com um contador da Hopecont
Preencha os campos e a gente continua a conversa no WhatsApp. Contabilidade mensal com escrituração completa, atendimento em todo o Brasil, sem fidelidade e sem multa de cancelamento.