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Planejamento tributário não é achar uma brecha: é usar as escolhas que a própria lei oferece. No consultório odontológico são sete, e elas se apoiam umas nas outras. Esta página reúne as sete, mostra o artigo de lei de cada uma e diz em que ordem se puxa — porque puxar fora de ordem costuma obrigar a refazer a conta inteira.
Resposta rápida
São sete alavancas no consultório odontológico: o CNAE que decide o anexo, o Fator R dos 28% de folha, o ponto do pró-labore, a escrituração contábil que libera distribuir mais, o teto de R$ 50 mil por mês que passou a valer em 2026, a separação entre serviço e prótese e o ISS do município. Todas com artigo de lei, e a ordem muda o resultado.
Quer saber quais dessas alavancas o consultório já usa e quais estão paradas?
Falar com um contadorO que é uma alavanca legal — e o que não é
Alavanca legal é uma decisão que a lei já autorizou e que muda o imposto sem mudar o atendimento: em que anexo o consultório é tributado, como o dentista sócio tira o dinheiro da empresa, onde o ISS é devido, e o que entra como serviço e o que entra como prótese vendida. Nada disso passa por omitir receita nem por interpretação forçada — tudo tem artigo e parágrafo, citados ao lado de cada seção.
O que não é alavanca: deixar de emitir nota do procedimento, registrar o dentista da equipe como PJ só para escapar da folha, distribuir lucro que o consultório não teve, ou abrir uma segunda empresa para dividir faturamento. As quatro aparecem como dica pronta e as quatro são risco de autuação.
É disso que trata o planejamento tributário: não de achar brecha, e sim de usar as escolhas que a norma já deixou escritas, na ordem certa e no prazo certo. O que vem abaixo é a lista dessas escolhas do consultório, uma a uma.
As 7 alavancas, com o artigo de lei de cada uma
Cada linha desta tabela tem um artigo de lei atrás. É isso que separa alavanca de palpite: dá para abrir a norma e conferir.
| A alavanca | O que ela muda | Onde está na lei |
|---|---|---|
| O CNAE que declara a atividade | Decide o anexo em que a empresa é tributada | LC 123/2006, art. 18, §§ 5º-B a 5º-I |
| O Fator R e os 28% de folha | Leva do Anexo V para o Anexo III quando a folha chega a 28% da receita | LC 123/2006, art. 18, §§ 5º-J e 5º-K |
| O ponto do pró-labore | Separa o que é salário do sócio do que é lucro, e alimenta o Fator R | LC 123/2006, art. 14 |
| A escrituração contábil | Libera distribuir lucro acima do limite presumido | LC 123/2006, art. 14, §§ 1º e 2º |
| O teto de R$ 50 mil por mês | Decide o calendário da distribuição e evita 10% de retenção na fonte | Lei 9.250/1995, art. 6º-A |
| A separação de serviço e mercadoria | Manda cada receita para o anexo dela, em vez de tudo no mais caro | LC 123/2006, art. 18, § 4º |
| O ISS do município | Define em qual município o ISS é devido, e a que alíquota | LC 116/2003, art. 3º |
As 7 alavancas legais do consultório, com a base normativa de cada uma. Fontes conferidas no Planalto em 28 de setembro de 2026.
O CNAE decide o anexo antes de qualquer conta
A odontologia entra no Anexo III por natureza, pelo art. 18, § 5º-B, XX, da LC 123/2006. O que muda a conta é o CNAE que o consultório declara: consultório odontológico, clínica com centro cirúrgico e laboratório de prótese são atividades distintas, e a última é indústria, não serviço.
O erro que mais aparece é o consultório que passou a fazer prótese dentro de casa e continuou com um CNAE só. A peça vendida é mercadoria, e mercadoria tem outro anexo e outra presunção. Enquanto o cadastro não refletir o que o consultório faz, nenhuma das outras alavancas funciona direito — o Fator R é calculado sobre a receita da atividade errada, e a separação de serviço e produto não tem onde se apoiar.
O CNAE também é o que define qual teto de faturamento alcança o consultório — e passar do teto desfaz qualquer alavanca de uma vez. O limite de faturamento do consultório tem os três números e o que cada um faz.
O Fator R: a folha de 28% que segura o Anexo III
Pelo art. 18, § 5º-J, da LC 123/2006, a atividade é tributada no Anexo III quando a folha de salários dos doze meses anteriores representar 28% ou mais da receita bruta do mesmo período. Abaixo disso, cai para o Anexo V. O § 5º-K é o que fixa a janela de doze meses.
No consultório odontológico a conta tem um detalhe que engana: o auxiliar de saúde bucal e a recepção entram na folha, mas o protético contratado como pessoa jurídica não entra. Um consultório que fatura R$ 25.000 por mês e tem R$ 7.500 de folha nos doze meses anteriores fica com Fator R em 30%, acima do corte. Trocar a auxiliar por serviço terceirizado pode parecer economia de folha e, na conta cheia, custar a subida de anexo.
A conta do Fator R é de divisão, e dá para fazer antes de decidir qualquer coisa: a calculadora de Fator R mostra em que ponto a folha do consultório cruza os 28%. Se o resultado ficar perto da linha, vale ler também qual pró-labore leva ao Anexo III sem perder no INSS.
O pró-labore é folha, INSS e imposto de renda ao mesmo tempo
Pelo art. 14 da LC 123/2006, o que sai como lucro para o sócio é isento; o que sai como pró-labore, não. O pró-labore é o que alimenta o Fator R e a contribuição previdenciária, e é também o que entra na declaração do dentista como rendimento tributável.
No consultório com um dentista só, esse número decide o anexo sozinho. Retirar pouco economiza INSS e IRPF no mês e pode custar a descida para o Anexo V no ano seguinte — e a diferença de anexo costuma ser maior que a economia. A conta certa é feita com os doze meses projetados na mão, não com o extrato do mês passado, porque a razão do § 5º-K é sempre retroativa.
Distribuir lucro acima do limite presumido, com escrituração contábil
O art. 14, § 1º, da LC 123/2006 limita o lucro isento ao resultado da aplicação dos percentuais do art. 15 da Lei 9.249/1995 sobre a receita bruta. Só que o § 2º diz que esse limite não se aplica quando a empresa mantém escrituração contábil e evidencia lucro maior. É a alavanca menos conhecida das sete.
Sem contabilidade completa, o consultório só distribui isento até o percentual presumido sobre a receita; o excedente precisa sair como pró-labore e paga INSS e IRPF. Com escrituração contábil, o limite passa a ser o lucro que o balanço mostra. Num consultório com custo de material alto e margem apertada, o balanço às vezes mostra menos — e saber disso antes de distribuir evita o pior dos mundos, que é distribuir lucro que a empresa não teve.
A contabilidade que sustenta esta alavanca é a que roda o ano todo — não a que se monta às pressas quando o sócio quer retirar mais. Os planos da Hopecont incluem a escrituração completa.
O teto de R$ 50 mil por mês: a regra nova de 2026
Desde janeiro de 2026, o pagamento de lucros e dividendos pela mesma empresa ao mesmo sócio pessoa física acima de R$ 50.000,00 num mesmo mês sofre retenção de 10% de imposto de renda na fonte sobre o total pago, não sobre o excedente. É o art. 6º-A da Lei 9.250/1995, incluído pela Lei 15.270/2025. O limite é por mês e por sócio, não por ano.
A regra muda o calendário da distribuição. O consultório que guardava o lucro e sacava tudo em dezembro passa a ter 10% retidos sobre o valor inteiro daquele mês, não só sobre o que excedeu os R$ 50 mil. Distribuir mensalmente, dentro do teto, não sofre retenção nenhuma. Com dois sócios o limite é de cada um, não da empresa — e é justamente isso que quase ninguém percebe ao montar a retirada do fim do ano.
Separar o serviço da prótese e do material vendido
O art. 18, § 4º, da LC 123/2006 manda separar a receita por atividade, e o art. 15 da Lei 9.249/1995 fixa presunções diferentes para serviço e para mercadoria. Prótese vendida ao paciente é mercadoria; o procedimento é serviço. Faturar tudo como serviço paga a alíquota do serviço sobre a peça também.
A separação exige cadastro: CNAE de comércio e, em regra, inscrição estadual. No Lucro Presumido a diferença é grande — a presunção do IRPJ é de 8% para mercadoria contra 32% para serviço —, e no Simples a receita de comércio vai para o Anexo I, que começa em 4,00%. É trabalho de cadastro, feito uma vez, que muda o imposto de todo mês.
O ISS no município certo, e a alíquota que varia de 2% a 5%
O art. 3º da LC 116/2003 diz que o serviço se considera prestado e o imposto devido no local do estabelecimento prestador — exceto nas hipóteses dos incisos I a XXII, em que o ISS é devido no local da prestação. E a alíquota varia de 2% a 5% conforme o município, dentro do piso e do teto da lei.
Para o consultório o ISS é devido, em regra, no município da sede, e a alavanca está na alíquota: ela vai de 2% a 5% e muda de cidade para cidade. Some a isso o cuidado com o convênio que retém na fonte: quando a retenção é feita e não é declarada do jeito certo, o município cobra de novo, do consultório — e aí não é alíquota, é multa.

A ordem em que se puxa cada uma
A ordem tem razão de ser. Classificar a receita vem antes de calcular qualquer coisa: se a prótese está somada ao serviço, o Fator R sai errado e o pró-labore é dimensionado em cima de um número falso. E a contabilidade tem de estar em dia antes da distribuição, não depois dela.
No consultório a sequência é esta: primeiro o CNAE, porque ele separa consultório, clínica cirúrgica e laboratório de prótese — e o terceiro é comércio, não serviço. Em seguida a separação de serviço e prótese, que depende do cadastro que acabou de ser conferido. Só então o Fator R e o pró-labore, nessa ordem, porque o Fator R se calcula sobre a receita já classificada certo. A escrituração contábil corre em paralelo e leva um exercício. O teto de R$ 50 mil é calendário de distribuição, decidido antes do primeiro pagamento do ano. O ISS já está decidido pelo endereço.
Uma decisão vem antes de todas e não está nesta lista, porque não é alavanca e sim escolha de regime: estar no Simples Nacional ou no Lucro Presumido. Simples Nacional do consultório vale a pena em 2026 e Lucro Presumido do consultório comparam os dois com a conta aberta. Feita essa escolha, as 7 alavancas acima são o que sobra para trabalhar — e é o trabalho da contabilidade do consultório no dia a dia.
A conta em reais
Os valores do exemplo servem para mostrar a mecânica e não vieram de nenhum consultório real. Alíquotas e limites são os das tabelas em vigor, com a norma citada em cada seção.
Comece pela alavanca que costuma valer mais: o Fator R. Uma consultório com R$ 600.000 de receita nos últimos doze meses paga assim, conforme a fórmula da alíquota efetiva do art. 18, § 1º, da LC 123/2006:
| Situação | Anexo | Alíquota efetiva | DAS no ano |
|---|---|---|---|
| Folha abaixo de 28% da receita | Anexo V | 17,85% | R$ 107.100,00 |
| Folha em 28% ou mais | Anexo III | 10,56% | R$ 63.360,00 |
| A diferença | — | — | R$ 43.740,00 no ano |
Alíquota efetiva pela fórmula do art. 18, § 1º, da LC 123/2006, sobre RBT12 de R$ 600.000. Cálculo próprio.
Para o Anexo III a folha dos doze meses precisa chegar a R$ 168.000, ou R$ 14.000 por mês (art. 18, §§ 5º-J e 5º-K). A decisão, então, não é “quero o Anexo III”: é se a folha que falta custa menos do que R$ 43.740,00 por ano. Quando a consultório já tem equipe, costuma custar menos; quando não tem, a conta pode dar o contrário — e por isso ela é feita antes, com os números reais, nunca depois.
No consultório a retirada grande costuma ser a do fim do ano, depois de fechada a conta do laboratório e dos materiais. A segunda conta sai daí, e não depende de estrutura nenhuma — só de calendário. Um sócio que recebe R$ 540.000 de lucro no ano paga coisas bem diferentes conforme o jeito de receber:
| Como o lucro sai | Valor por pagamento | Passa dos R$ 50 mil? | IRRF no ano |
|---|---|---|---|
| 12 parcelas mensais | R$ 45.000 | Não | R$ 0 |
| 9 parcelas maiores | R$ 60.000 | Sim, em todas | R$ 54.000 |
| A diferença | o mesmo dinheiro | — | R$ 54.000 |
Retenção do art. 6º-A da Lei 9.250/1995, incluído pela Lei 15.270/2025. Cálculo próprio.
É o mesmo dinheiro, no mesmo ano, para o mesmo sócio. A diferença é que no segundo caso todo pagamento passou de R$ 50.000,00, e aí a lei manda reter 10% sobre o valor inteiro do pagamento, não sobre o que excedeu, sem nenhuma dedução da base (art. 6º-A, § 1º). É por isso que essa alavanca é a mais barata de puxar. Nada muda no consultório, no contrato ou na equipe — muda apenas o calendário em que o dinheiro é pago ao sócio.
Essa retenção não é um imposto novo e definitivo: ela é antecipação. O art. 16-A, § 5º, da mesma lei manda deduzi-la da tributação mínima anual, e o saldo entra na declaração de ajuste (§ 6º). Quem recebe menos de R$ 600.000 de rendimentos no ano recupera o que foi retido — mas sem o dinheiro no caixa até a restituição. Quem passa disso entra na tributação mínima, e aí a alíquota cresce assim:
| Rendimentos do sócio no ano | Alíquota mínima |
|---|---|
| R$ 600.000 | 0,00% |
| R$ 700.000 | 1,67% |
| R$ 800.000 | 3,33% |
| R$ 900.000 | 5,00% |
| R$ 1.000.000 | 6,67% |
| R$ 1.200.000 | 10,00% |
Art. 16-A, § 2º, da Lei 9.250/1995: 10% a partir de R$ 1.200.000,00 e, entre R$ 600.000,00 e esse valor, alíquota = (rendimentos ÷ 60.000) − 10. Cálculo próprio.
Repare no encaixe: o redutor que abate essa tributação mínima só sai para quem apresenta demonstrações financeiras da empresa (art. 16-B). É a escrituração contábil de novo — a mesma alavanca que libera distribuir acima do limite presumido volta aqui, do outro lado da conta.
Quer a conta com os números reais do consultório, e não com os do exemplo?
Falar com um contador
Três coisas que parecem alavanca e não são
A fronteira entre planejamento e problema é simples: a alavanca muda uma escolha que a lei oferece; o problema muda o que foi declarado. Estes três aparecem sempre do consultório, e nenhum deles se sustenta numa fiscalização.
- Faturar a prótese dentro da nota de serviço porque é mais simples. É mais simples e é mais caro: a peça paga a alíquota do serviço em vez da de mercadoria, e no Presumido a diferença de presunção é de 8% contra 32% no IRPJ.
- Registrar o protético como pessoa jurídica quando ele trabalha com horário e subordinação. Reduz a folha, derruba o Fator R e cria passivo trabalhista — três problemas pelo preço de um.
- Deixar a inscrição da pessoa jurídica no CRO vencer. Não é tributário, mas derruba pedido de ingresso no Simples e trava a emissão em alguns municípios. Nenhuma alavanca funciona com o cadastro irregular.
O que a reforma tributária muda nisso
Em 1º de janeiro de 2027 a CBS começa a valer e o optante do Simples passa a escolher como paga IBS e CBS: dentro da guia única ou por fora, gerando crédito para o comprador. É mais uma escolha, não a substituição das outras. Consultório que atende pessoa física dificilmente muda; quem fatura para convênio e para clínica-parceira vai ter de olhar a conta do crédito.
Perguntas frequentes
A prótese feita fora e revendida ao paciente é serviço ou mercadoria?
Convênio odontológico que retém ISS muda a conta?
O teto de R$ 50 mil vale para consultório com um sócio só?
Dá para usar a equiparação hospitalar na odontologia?
Vale a pena a contabilidade completa num consultório pequeno?
Isso tudo é legal mesmo, ou é só um jeito bonito de dizer sonegação?
Quanto tempo leva para o consultório sentir cada mudança?
O resumo
Sete alavancas, e a ordem importa: CNAE, separação de serviço e prótese, Fator R, pró-labore, escrituração contábil, calendário de distribuição e ISS. Duas quase nunca são usadas — o § 2º do art. 14, que libera distribuir acima do limite presumido quando há contabilidade, e a regra de 2026 que retém 10% do valor inteiro quando o sócio recebe mais de R$ 50 mil num mês.
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